A Escravidão em Leopoldina



Segundo Oiliam José em Abolição em Minas, "As terras do município de Leopoldina desconheceram as tropelias do ciclo das minas. Foram desbravadas, a partir dos primeiros anos do século XIX, e colonizadas por agricultores e à agricultura continuariam dedicadas até o início da atual centúria, quando, com a queda sofrida pelo café, a pecuária passou a preponderar nelas. Era natural, por isso, que Leopoldina dispusesse, ao longo da época imperial, de numerosa população escrava, por sinal, a maior da Província em certa época".

1876 -    Leopoldina abriga a maior população escrava da Província, com 15.253, para um total de 365.861 em Minas. Em 1883, é a segunda cidade com maior número de escravos da Província, com 16.001, contra 21.808 da primeira colocada, a cidade de Juiz de Fora.



Servidos por tão numerosa escravaria e apoiados na força econômica do café, os fazendeiros leopoldinenses levavam um padrão de vida faustoso e, até certo ponto, aristocrático, copiando, na medida do possível, os usos e costumes da Corte.

Os números mencionados indicam, eloqüentemente, a força econômica e social dos senhores leopoldinenses e fazem compreender o empenho com que lutavam contra as tentativas de emancipação do elemento escravizado. E sabiam eles colocar em ação o poder de que dispunham! Era conhecida a pressão que os senhores de escravos do município faziam junto aos deputados mineiros à Assembléia Geral do Império para que não apoiassem os projetos emancipacionistas. Para isso, tinham a facilidade de manter constantes comunicações com a Corte, à qual estavam mais ligados que a Ouro Preto.



Houve, contudo, no município, belos exemplos de generosidade para com os cativos e de manumissão deles. Ao Segundo Barão do Bonfim, José Jeronymo de Mesquita, pertence o mais interessante. Em 15 de abril de 1888, alforriou seus 182 escravos e, à frente deles, entrou na cidade, indo todos assistir à Missa, na Igreja Matriz. Após o ato, o mesmo grupo voltou, sob aplausos, até o centro, onde o benemérito proprietário da Fazenda do Paraíso foi alvo de entusiástica manifestação dos abolicionistas e do povo leopoldinense, em nome dos quais discursou o Dr. Paula Ramos, Presidente da Câmara Municipal. Solidarizando-se com as homenagens ao Barão do Bonfim, falou o Vigário Padre José Francisco Durães, logo seguido do Juiz Municipal, Dr. Antônio Augusto de Lima, veterano abolicionista desde os bancos acadêmicos de São Paulo e um dos mais dignos mineiros que a República projetou no cenário nacional.

Não é de estranhar, pois, que a notícia da promulgação da "Lei Áurea", divulgada no município no correr do dia 14 de maio, tenha provocado ali geral consternação entre os agricultores e motivado violentos protestos dos proprietários de escravos, inclusive reunião deles para externarem seu formal repúdio à Monarquia que, no entender de todos eles, havia praticado verdadeira espoliação e estava no dever de votar imediata indenização em favor dos que perderam a propriedade escrava.

 

No entanto não podemos nos esquecer que há alguns anos estava em curso a substituição da mão-de-obra escrava pelo trabalhador livre, especialmente com a contratação de imigrantes europeus. Especialmente entre os fazendeiros de café, desde o início dos anos oitenta dos oitocentos formaram-se associações destinadas a organizar o trabalho nas fazendas, nos moldes do que vinha sendo feito no estado de São Paulo. A análise de documentos dos então chamados Clubs da Lavoura, bem como a comparação dos mapas de arrecadação de tributos sobre escravos da década de oitenta, leva-nos a crer que houve uma queda significativa no número de cativos nas fazendas da região de Leopoldina. Talvez o 13 de maio tenha encontrado escravos de lavoura somente nas pequenas propriedades e, nas grande fazendas, parece-nos que 1888 só os encontrou quando destinados aos trabalhos de dentro de casa. Para melhor avaliação dos leitores, sugerimos o documento anexo, uma ata de reunião de lavradores de Angustura, em dezembro de 1887.